Depois da clonagem de bebês chineses um biólogo russo planeja editar mais genomas de bebês.

No ano passado, um cientista chinês afirmou ter usado técnica CRISPR para editar o genoma de duas crianças, gerando protestos globais.

Ilustração computadorizada de colônia do vírus HIV. Crédito: Shutter Stock | Fonte: http://sciam.uol.com.br/biologo-russo-planeja-editar-mais-genomas-de-bebes/

Um cientista russo afirma que está planejando realizar procedimentos de edição genética em bebês, o que o tornaria a segunda pessoa no mundo a conduzir tal experimento. Essa iniciativa iria contra o consenso científico de que tais experimentos deveriam ser proibidos até que um comitê ético internacional estabeleça as circunstâncias e medidas de segurança que justifiquem esse uso.


O biólogo molecular Denis Rebrikov disse à revista Nature que está considerando a implantação de embriões geneticamente modificados em mulheres, possivelmente antes do final do ano, caso ele consiga aprovação até lá. O cientista chinês He Jiankui provocou protestos internacionais quando anunciou, em novembro do ano passado, que havia criado os primeiros bebês editados geneticamente do mundo — duas meninas gêmeas.


O novo experimento terá como alvo o mesmo gene que He editou, chamado CCR5, mas Rebrikov afirma que sua técnica trará maiores benefícios, oferecerá menos riscos e será mais eticamente justificável e aceitável para o público. Rebrikov planeja desativar o gene, que codifica uma proteína que permite que o HIV entre nas células, em embriões que serão implantados em mães soropositivas, reduzindo o risco de transmitirem o vírus para o bebê no útero.


Por outro lado, He modificou o gene em embriões criados a partir de pais com HIV, o que muitos geneticistas disseram ter pouco benefício clínico, porque o risco de um pai transmitir o HIV para seus filhos é mínimo, diferentemente da mãe.


Rebrikov dirige um laboratório de edição de genoma na maior clínica de fertilidade da Rússia, o Centro de Pesquisa Médica Nacional Kulakov para Obstetrícia, Ginecologia e Perinatologia, em Moscou, e é pesquisador da Universidade de Pesquisa Médica Nacional Russa de Pirogov, também em Moscou.


De acordo com Rebrikov, ele já tem um acordo com um centro de HIV na cidade para recrutar mulheres infectadas com o HIV que querem participar do experimento.

Mas cientistas e bioeticistas ouvidos pela Nature estão incomodados com os planos de Rebrikov.


“A tecnologia ainda não está pronta”, diz Jennifer Doudna, bióloga molecular da Universidade da Califórnia em Berkeley, que foi pioneira no sistema de edição de genoma CRISPR-Cas9 que Rebrikov planeja usar. “Não é surpreendente, mas é muito decepcionante e inquietante.”


Alta Charo, pesquisadora em bioética e direito na Universidade de Wisconsin-Madison, diz que os planos de Rebrikov configuram um uso antiético da tecnologia. “É irresponsável prosseguir com este protocolo neste momento”, diz Charo, que participa de um comitê da Organização Mundial da Saúde que está formulando políticas de governança ética para edições do genoma humano.


REGRAS E REGULAÇÕES

A implantação de embriões edificados por genes é proibida em muitos países. A Rússia tem uma lei que proíbe a engenharia genética na maioria das circunstâncias, mas não está claro se ou como as regras seriam aplicadas em relação à edição de genes em um embrião.


E as regulamentações da Rússia sobre reprodução assistida não se referem explicitamente à edição genética, de acordo com uma análise de 2017 de tais regulamentações em vários países. (A lei na China também é ambígua: em 2003, o Ministério da Saúde proibiu a modificação genética de embriões humanos para reprodução, mas a proibição não acarretou penalidades e o status jurídico de He estava, e ainda está, incerto).


Rebrikov espera que o Ministério da Saúde esclareça as regras sobre o uso clínico da edição genética de embriões nos próximos nove meses. Rebrikov diz que sente um senso de urgência para ajudar as mulheres com HIV, e está tentado a prosseguir com seus experimentos mesmo antes da Rússia aprovar as regulações.


Para reduzir a chance de ser punido pelos experimentos, Rebrikov planeja primeiro conseguir a aprovação de três agências do governo, incluindo o Ministério da Saúde. Isso pode levar de um mês a dois anos, ele afirma.


Konstantin Severinov, um geneticista molecular que recentemente ajudou o governo a criar um programa de financiamento para pesquisas de edição genética, diz que tais aprovações podem ser difíceis. A poderosa Igreja Ortodoxa Russa se opõe à edição genética, conta Severinov, que divide seu tempo entre a Universidade Rutgers, em Piscataway, Nova Jersey, e o Instituto Skolkovo de Ciência e Tecnologia, perto de Moscou.


Antes que qualquer cientista tente implantar embriões geneticamente modificados em mulheres, é necessário um debate aberto e transparente sobre a viabilidade científica e a permissibilidade ética, diz o geneticista George Daley, da Harvard Medical School, em Boston, Massachusetts, que também soube dos planos de Rebrikov pela Nature.


Um motivo pelo qual a edição genética de embriões criou um enorme debate global é que, se permitir que esses se transformem em bebês, o material editado pode ser passado para gerações futuras — uma intervenção de longo alcance conhecida como alteração da linhagem germinativa. Os pesquisadores concordam que a tecnologia pode, um dia, ajudar a eliminar doenças genéticas, como a anemia falciforme e a fibrose cística, mas muitos testes são ainda necessários antes de se usar a técnica na alteração de seres humanos.


Na esteira do anúncio de He, muitos cientistas renovaram os apelos por uma moratória internacional sobre a edição germinal. Embora isso ainda não tenha acontecido, a Organização Mundial de Saúde, a Academia Nacional de Ciências dos EUA, a Royal Society do Reino Unido e outras organizações proeminentes já discutiram como impedir o uso antiético e perigoso — geralmente definido como risco desnecessário ou excessivo — de edição de genoma em humanos.


MÃES SOROPOSITIVAS

Embora He tenha sido amplamente criticado por conduzir experimentos usando esperma de pais soropositivos, seu argumento era que ele só queria proteger as pessoas contra a infecção. Mas cientistas e especialistas em ética argumentam que existem outras maneiras de diminuir o risco de infecção, como contraceptivos. Há também alternativas razoáveis, como as drogas, para prevenir a transmissão materna do HIV, afirma Charo.


Rebrikov concorda, e planeja implantar embriões apenas em um subgrupo de mães soropositivas que não respondem aos medicamentos anti-HIV. Nesse caso, o risco de transmitir a infecção para a criança é maior. Se a edição desabilitar com sucesso o gene CCR5, esse risco seria bastante reduzido, diz Rebrikov. “Esta é uma situação clínica que exige este tipo de terapia”, ele argumenta.


Mesmo assim, a maioria dos cientistas diz que não há justificativa para editar o gene CCR5 em embriões, porque os riscos não superam os benefícios. Mesmo que a terapia siga o planejado, e ambas as cópias do gene CCR5 nas células sejam desativadas, ainda há uma chance de que esses bebês possam se infectar com o HIV.


Acredita-se que a proteína da superfície celular codificada por CCR5 seja a porta de entrada para cerca de 90% das infecções por HIV, mas se livrar dela não afetará outras rotas de infecção do vírus. Ainda há muitas incógnitas sobre a segurança da edição de genes em embriões, diz Gaetan Burgio, da Universidade Nacional da Austrália, em Camberra. “E quais são os benefícios de editar esse gene?”, ele pergunta. “Eu não os vejo.”


ATINGINDO O ALVO

Há também preocupações sobre a segurança de se editar genes em embriões de forma mais geral. Rebrikov afirma que seu experimento — que, assim como o de He, vai utilizar a ferramente de edição de genes CRISPR-Cas9 — vai ser seguro.

Uma grande preocupação com a experiência de He — e com a edição genética de embriões em geral — é que CRISPR-Cas9 pode causar mutações não intencionais “fora do alvo” do gene, que podem ser perigosas se, por exemplo, desativarem um gene supressor de tumores.


Mas Rebrikov diz estar desenvolvendo uma técnica que pode garantir que não haja mutações “fora do alvo”; ele planeja postar as descobertas preliminares online dentro de um mês, possivelmente no servidor bioRxiv ou em uma revista revisada por pares.


Cientistas contatados pela Nature são céticos de que tais garantias possam ser feitas para evitar mutações “fora do alvo”, ou sobre outro desafio conhecido de usar CRISPR-Cas9 — as chamadas “mutações no alvo”, nas quais o gene correto é editado, mas não da maneira pretendida.


Rebrikov escreve, em um artigo publicado no ano passado no Boletim do RSMU, do qual ele é o editor chefe, que sua técnica desativa ambas as cópias do gene CCR5 (excluindo uma seção de 32 bases) mais de 50% as vezes. Ele diz que publicar nesta revista não foi um conflito de interesses porque os revisores e editores não sabem quem são os autores de um artigo.


Mas Doudna é cética em relação a esses resultados. “Os dados que vi dizem que não é assim tão fácil controlar a maneira como a restauração do DNA funciona.” Burgio também acha que as edições provavelmente levaram a outras deleções ou inserções que são difíceis de detectar, como é frequente ocorrer no caso de edições genéticas.


Edições erradas podem significar que o gene não é desativado adequadamente, e então a célula ainda é acessível ao HIV, ou que o gene mutado poderia funcionar de uma maneira completamente diferente e imprevisível. “Pode se tornar uma verdadeira bagunça”, conta Burgio.


Além disso, o CCR5 não mutado tem muitas funções que ainda não são bem compreendidas, mas que oferecem alguns benefícios, dizem os cientistas críticos dos planos de Rebrikov. Por exemplo, parece oferecer alguma proteção contra as principais complicações após a infecção pelo vírus do Nilo Ocidental ou da gripe. “Sabemos muito sobre o seu papel [CCR5] na entrada do HIV [nas células], mas não sabemos muito sobre seus outros efeitos”, diz Burgio.


Um estudo publicado na semana passada também sugeriu que pessoas sem uma cópia de trabalho do CCR5 podem ter um tempo de vida reduzido.


Rebrikov entende que, se ele prosseguir com o experimento antes que as regulamentações atualizadas da Rússia estejam em vigor, ele pode ser considerado um segundo He Jiankui. Mas ele diz que só faria isso se tivesse certeza da segurança do procedimento. “Eu acho que sou louco o suficiente para fazer isso”, afirma.


David Cyranoski/ Nature

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