Por que o governo socialista da China constrói cidades-fantasma sem nenhum habitante?

A migração de trabalhadores rurais para as grandes cidades é uma parte importante do projeto de desenvolvimento chinês. Por décadas, esse fluxo de camponeses manteve os salários baixos no país e seus produtos, competitivos.

DISTRITO DE KANGBASHI, NA CIDADE DE ORDOS, EM 2011 | FOTO: DAVID GRAY/REUTERS | Fonte: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/05/20/Por-que-a-China-constr%C3%B3i-cidades-fantasma

O processo ainda está em curso. Segundo estimativas de 2012 da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a população urbana da China deve aumentar em 300 milhões até 2030.


Oficialmente, governos locais usam o aumento dessa população como justificativa para estimular o mercado imobiliário, que responde hoje por uma parte importante do investimento privado e do crescimento econômico do país.


Alguns pesquisadores veem, no entanto, um descompasso entre o ritmo de construção de área urbana -como apartamentos, teatros, ruas e parques- e o aumento da população nas cidades.


Em um artigo publicado em 2016 no “Jornal da Ásia Contemporânea”, Christian Sorace e William Hurst destacam informações divulgadas em 2013 pelo vice-ministro de Terras Nacionais e Recursos Nacionais chinês, Hu Cunzhi, segundo as quais a construção de áreas urbanas ocorreu em um ritmo 1,71 vez maior do que o do crescimento da população nesses locais entre 1990 e 2000. Entre 2000 e 2010, o ritmo foi 1,85 vez maior.


No trabalho, intitulado “A urbanização fantasma da China e a patologia das cidades-fantasma”, Hurst e Sorace abordam uma expressão visível desse descompasso: as monumentais cidades-fantasma, que despontam em zonas rurais, desertos ou próximas a áreas urbanas consolidadas.


Algumas dessas áreas são réplicas vazias de partes de cidades como Nova York ou Paris. Imagens de pessoas caminhando em meio a esses locais passam uma sensação de paz distópica que é o oposto da agitação urbana para a qual foram planejados.


Uma pesquisa publicada em 2015 pelo Massachusetts Institute of Technology identificou, com base em padrões de uso de internet, cerca de 50 cidades-fantasma na China. Um exemplo pode ser visto neste vídeo de 2012, da cidade de Chenggong, na província de Yunnan.

Publicado em 2012 em plataformas como Youtube e Vimeo, o vídeo “Ordos: andando de skate em uma cidade-fantasma no norte da China” descreve o distrito de Kangbashi, em Ordos, como “construída para um milhão de habitantes, mas habitada por alguns milhares” e mostra um grupo de skatistas fazendo manobras em meio a ruas e prédios praticamente vazios. Kangbashi é frequentemente citada na mídia internacional como exemplo de cidade-fantasma.

Publicado em 2013, o vídeo Tianducheng mostra réplicas da Torre Eiffel e de outros prédios de inspiração parisiense praticamente vazios. Segundo um artigo publicado em janeiro de 2017 no jornal “The Globe and Mail”, no entanto, o local vem sendo lentamente povoado.

Muitas das cidades-fantasma que se tornaram focos da mídia internacional vêm sendo ocupadas, outras se mantêm vazias há anos.

De acordo com o trabalho de Sorace e Hurst, a construção desse tipo de empreendimento responde tanto a incentivos financeiros quanto políticos. Eles afirmam que o mercado imobiliário se tornou uma parte importante do investimento das parcelas mais ricas da população.


Em paralelo, autoridades locais incentivam o mercado imobiliário para aumentar a arrecadação e o Produto Interno Bruto regional. Mesmo quando não atingem esses objetivos, a construção serve como mensagem política.

“Até mesmo quando a urbanização é forçada, contraprodutiva ou fabricada, ela é o destino ao qual todos os caminhos levam. Mesmo quando a construção de novos espaços urbanos é financeiramente prejudicial para Estados locais, eles o buscam”

Artigo ‘A urbanização fantasma da China e a patologia das cidades-fantasma’, publicado em 2016 no ‘Jornal da Ásia Contemporânea’

Veja abaixo os principais pontos pelos quais, segundo os autores, se constroem cidades-fantasma na China:


Aumento de arrecadação

Segundo o trabalho, reformas fiscais realizadas em 1994 centralizaram a arrecadação para o nível federal na China, mas descentralizaram responsabilidades para governos locais. Em 2010, governos locais eram responsáveis por 82,2% dos gastos, apesar de o governo central concentrar metade da arrecadação.


Como alternativa para levantar fundos, essas administrações passaram a se utilizar da prerrogativa de desapropriar terras da zona rural por um preço baixo para então vendê-las por um preço alto a empreendedores imobiliários. Elas ganham também com impostos sobre o processo. Segundo o trabalho, em 2010, 71,7% da renda dos governos locais vinha de taxas sobre a transferência de terras.


Além disso, ao transformar áreas rurais ou de moradias populares em distritos financeiros, condomínios nobres ou centros de comércio, busca-se incentivar atividades lucrativas que podem aumentar a arrecadação e, consequentemente, a “base de poder” desses governos.


Especulação imobiliária

Os pesquisadores afirmam que o mercado imobiliário chinês é hoje o grande foco do investimento das classes mais altas. Um relatório de 2011 do Citibank citado aponta que cerca de 65% da riqueza pessoal do país está investida em imóveis -antes do estouro da bolha imobiliária americana, cerca de 30% a 40% da riqueza pessoal dos EUA estava concentrada em investimentos imobiliários.


A volatilidade do mercado de ações do país, as restrições legais para transferir dinheiro para o exterior, e o retorno baixo obtido com títulos e outros meios de poupança impelem os investidores chineses a recorrerem a esse tipo de aplicação.


O investimento é feito preferencialmente em imóveis de padrão alto, o que faz com que as parcelas da população entre as quais há maior déficit de habitação continuem sem acesso a moradia.


Segundo o relatório do Citibank, “propriedade não é apenas um tipo de consumo de mercadorias para satisfazer necessidades de moradia, mas também representa a grande responsabilidade de cumprir o papel de produto de investimento. Nos últimos 20 anos, o mercado de propriedade da China agiu como uma enorme reserva de capital”.


O ganho obtido com aluguéis é baixo quando comparado com os preços dos imóveis. Por isso, o rendimento destes bens “depende quase que completamente de seu preço como ativo, não seu potencial para geração de renda”. Muitos investidores preferem mantê-los vazios como forma de proteger a parte mais importante de seu valor, para depois vender por um preço mais alto, o que impulsiona o fenômeno das cidades-fantasma.


Em 2013, o britânico David Harvey, referência em geografia urbana, escreveu que “desde a metade do Século 19, se não antes, o desenvolvimento urbano foi sempre especulativo, mas a escala especulativa do desenvolvimento chinês parece ser de uma ordem completamente diferente de tudo o que veio anteriormente na história humana”. A frase é do livro “Cidades Rebeldes: do direito à cidade à revolução urbana”.


A construção de cidades como performance política

Na argumentação dos autores, a criação de cidades é uma performance política que passa a mensagem de modernização.


Uma forma burocrática de realizar essa performance é converter o status administrativo de um bairro ou outro tipo de povoado em cidade, sem que nenhuma mudança significativa tenha ocorrido no local. “Uma onda de urbanização ocorreu via a renomeação administrativa e promoção de vilarejo para cidade, condado para municipalidade”, escrevem os autores.


Outro caminho é a construção de estruturas físicas. Os pesquisadores avaliam que mesmo regiões cuja renda advém de atividades como mineração ou gás natural investem na construção de grandes cidades como “uma mostra de poder político e evidência estética espetacular do desenvolvimento modernizador”.


Por isso, afirmam que esse tipo de cidade pode ser construído simplesmente para transmitir a ideia de sucesso político, mesmo quando representa perdas fiscais.


Além disso, o simples gasto com a construção de uma cidade aumenta o Produto Interno Bruto de uma região o que, contabilmente, representa uma conquista atingida pelos administradores -mesmo se ela não for acompanhada de aumento de bem estar entre a população.


Os administradores defendem também a ideia de que, uma vez construída toda a enorme infraestrutura urbana, pessoas e capital virão em seguida, justificando-a e ampliando os ganhos que ela representa. Mas essa especulação nem sempre se materializa em realidade.

“O processo urbano fantasma é costurado precariamente através da presunção de que a construção de espaços urbanos ao final resultará na urbanização ao atrair investimento financeiro e residentes. Cidades-fantasma são os artefatos materiais de um truque de conjuração mal sucedido”

Artigo 'A urbanização fantasma da China e a patologia das cidades-fantasma’, publicado em 2016 no ‘Jornal da Ásia Contemporânea’


O artigo usa o caso do distrido de Kangbashi, que faz parte da cidade de Ordos, na Região Autônoma da Mongólia interior. No final de 2004, o governo local direcionou o excedente de arrecadação para iniciar a construção da cidade, que seria uma nova capital administrativa em meio ao deserto. Em seguida, lucros da indústria de carvão e empréstimos privados com altos juros foram direcionados para o desenvolvimento imobiliário.


Logo, a nova cidade se tornou foco de especulação imobiliária, com investidores comprando imóveis para depois vendê-los por preços mais altos no mercado. A maior parte da cidade monumental, no entanto, permanece desabitada, o que a torna um dos exemplos mais eloquentes de cidades-fantasma chinesas.


Segundo o artigo, a renda abundante do carvão fez com que o governo local “se envolvesse em uma bonanza especulativa prestando pouca atenção a suas consequências que hoje são claramente desastrosas”. Após a queda dos preços do carvão, o mercado imobiliário perdeu uma das fontes de receita que o mantinha girando. Hoje, o governo local se encontra profundamente endividado. E a cidade continua vazia.

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